EXPOSIÇÃO FOTOGRÁFICA

O frescor ao inalar e o silêncio ao escutar. A vastidão a enxergar e o receio de tocar. Talvez sejam essas as sensações percebidas pela maioria das pessoas que tiveram o privilégio de um dia estar na Antártica.
 
Sejam exploradores, cientistas, operadores ou turistas, quem deixa a Antártica não a deixa sair de si. O naturalista e apresentador britânico David Attenborough (que nomeia o mais moderno navio de pesquisa polar atual, operado pelo Serviço Antártico Britânico) disse, sobre a Antártica:
"Um lugar onde é possível ver os esplendores e imensidão do mundo natural em sua forma mais dramática e, além disso, presenciá-los quase exatamente como eram, muito, muito antes de os seres humanos chegarem à superfície deste planeta. Que por muito tempo continue assim." 
Mas a Antártica que a tantos encanta também pode ser brutal e ameaçadora, como alertou, no contexto dos recursos e conhecimento disponíveis em sua época, o também britânico Apsley Cherry-Garrard, jovem zoólogo assistente da Expedição Antártica Britânica de 1910-1913 (Expedição Terra Nova):
 
"A exploração polar é a mais certeira e solitária forma de passar apuros que já foi inventada."
 
Ao falarmos em trabalho de campo na Antártica, e mais ainda de trabalho de campo em paleontologia, que na maioria das vezes é feito em acampamentos, percorrendo grandes distâncias a pé, escavando ao ar livre e lidando com cargas volumosas, temos o regozijo que Attenborough nos descreve, com uma pitada da ansiedade de Apsley Cherry-Garrard. Esta última aplacada com a logística atualmente disponível aos projetos que atuam sob os auspícios do Programa Antártico Brasileiro. Mas ainda assim há limites. Nem sempre o destino almejado é alcançado ou o tempo e recursos disponíveis são suficientes. Se o mar e os ventos não cooperarem, não há equipamento ou disposição que compensem o obstáculo, e desafiar os rigores do clima antártico é a melhor maneira de materializar a aflita frase do traumatizado Cherry-Garrard.
A estrutura, capacidades e recursos do PROANTAR permitem que os desafios logísticos para a realização da pesquisa em campo na Antártica, atualmente insuperáveis para uma universidade, museu ou indivíduo, sejam quase sempre vencidos. Sendo a ciência pacífica a única maneira reconhecida formal e globalmente para que uma nação tenha seu papel e sua voz sobre temas antárticos (oceano austral inclusive) respeitados nas instituições e fóruns internacionais, o investimento realizado é muito pequeno frente aos ganhos estratégicos, técnico-científicos, formativos e materiais já colhidos e ainda a colher. Por isso o PROANTAR e a presença do Brasil na Antártica devem ser defendidos e celebrados por todos e valorizados, sempre, pelos gestores públicos e legisladores.   
Ademais do compromisso de informar à sociedade um pouco do que é feito no âmbito do PROANTAR, a divulgação dos resultados e registros dos trabalhos de campo realizados pelos pesquisadores brasileiros na Antártica tem um valor na necessidade de educar a população quanto à importância ambiental da Antártica e o quão perto ela está de cada brasileiro, contrariando o imaginário popular. Por ser tão pouco conhecida, e por ser tão importante para a regulação do clima global, dos oceanos e da vida marinha, a preservação da Antártica é uma responsabilidade premente e permanente para a qual crianças e adultos devem ser sensibilizados e envolvidos.
Considerando tudo isso, para trazer aos participantes e visitantes do XXVII Congresso Brasileiro de Paleontologia um pouco do regozijo (e uma pitada da aflição) e divulgar a Antártica e o trabalho ali desenvolvido por paleontólogos no âmbito do Programa Antártico Brasileiro, uma exposição de fotos será exibida no II Simpósio Brasileiro de Pesquisa Antártica. Assim, pelo menos uma das sensações acima citadas (a visual) poderá ser compartilhada. 
Para ser bem compartilhada, nada melhor do que o trabalho de um fotógrafo de excelência e nível internacional. O PROANTAR destaca alpinistas experientes para acompanhar os pesquisadores na Antártica, especialmente nos acampamentos, visando a segurança e orientação de todos. Por sorte, os acampamentos lançados pelo Programa para manter trabalhos em paleontologia contaram com alpinistas formidáveis. E por mais sorte ainda, um deles, Edson Vandeira, é também um fotógrafo estupendo que acompanhou três grandes acampamentos com paleontólogos: na 37ª OPERANTAR (2016) por 43 dias na Ilha James Ross, na 37ª (2017/2018) por 48 dias na Ilha Vega, e na 39ª (2019/2020) por 57 dias na Ilha Marambio, na Península Antártica. Além de ter tido bastante contato com o trabalho com os fósseis, Vandeira aplicou sua experiência como fotógrafo da National Geographic Society em registros incríveis que estarão expostos em maio de 2022, no hall do Instituto de Computação da UFMT. Algumas das imagens a serem expostas podem ser conferidas no portfólio digital de Vandeira. A exposição contará também com alguns  registros feitos pelos próprios paleontólogos.

Escalador e montanhista, Edson Vandeira é atualmente um dos fotógrafos colaboradores da National Geographic especializado em aventura, ciência e cultura. Foi contratado para apoiar o Programa Antártico Brasileiro como alpinista responsável pela segurança dos cientistas em oito operações antárticas. Em suas expedições, Vandeira aproveita os conhecimentos técnicos tanto do montanhismo como da fotografia para que suas imagens continuem sendo uma eficiente ferramenta para contar boas histórias. Encontre-o em edsonvandeira.com.br e em @edsonvandeira.

Douglas Riff 

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